Carcaça, pé de galinha e pescoço ficaram mais caros

Sidnei de Jesus 83_SidSJ 13/10/2021 Relatar Quero comentar

'Carne de ossos': carcaça temperada, pé de galinha, pescoço e outros cortes de terceira também ficaram mais caros

Partes que antes tinham menos procura seguiram exemplos dos cortes nobres e estão custando até 60% a mais do que há 1 ano atrás, dizem açougues consultados. Frigoríficos afirmam não ter dados sobre a venda.


Família cozinha ossos — Foto: Reprodução / Fantástico

A alta dos preços da carne refletiu nos valores dos cortes de segunda e de terceira. Açougues relatam que carcaça temperada, pé de galinha e pescoço, entre outras partes de boi, vaca e porco, tiveram um aumento de procura e também encareceram.

Não há dados nacionais sobre esses cortes. Em , o pescoço de frango teve elevação 15,79% no preço em setembro na comparação dos 12 meses, segundo a consultoria Safras e Mercados.

A carcaça temperada de frango subiu 45%, o dorso, 60%. Entre os suínos, a maior alta foi no espinhaço (23,91%), que é a "coluna" do porco, e na orelha (20%).

Confira a variação dos preços de cortes menos nobres — Foto: Daniel Ivanaskas

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A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) não disponibiliza dados sobre desses cortes e a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística () se restringe a carnes de primeira e de segunda ou ao produto como um todo, no caso do frango e porco.

A realidade dos açougues

A Rede Mais Açougues, com unidades em 10 estados, diz que as 'carnes de ossos', como eles classificam as partes menos (ou nada) nobres, ficaram 100% mais caras entre o início da pandemia e agora.

Segundo Moscato, o confundador, com a alta da procura, foi preciso equiparar o valor desses cortes com o restante das carnes.

O empresário conta que a venda de carnes de primeira, como a maminha, teve uma queda de 22%. Para ele, o consumo ainda é sustentado pelas unidades que ficam em regiões de classes A e B.

O  economizarem nas refeições, de acordo com a pesquisa Datafolha divulgada em 20 de setembro.

“Tivemos uma mudança radical depois do aumento da carne. Eu vendia boi. Muita gente migrou para porco, frango, reduziu a quantidade de carne mais cara e o pessoal começou a reduzir carne mais em conta, sim”, relata Elizangela Neres, dona de um açougue em Paiva (MG).

A também açougueira Dinabi Melanias, de Várzea Grande (MT), aponta que o acém - considerado carne de segunda - , o frango e o pescoço de galinha se tornaram os carros-chefes. Na loja de Nazareth Aparecida, em Belo Horizonte, os consumidores buscaram mais suínos e pé de frango.

Além disso, os miúdos, como o fígado, e os processados, como a salsicha, também tiveram uma boa procura, segundo o açougueiro Alvimar Gaspar, do Rio de Janeiro.

Família de SC cozinha ossos para alimentação e distribui sopa solidária — Foto: NSC TV/Reprodução

Ossos e a fome

Imagens de pessoas buscando ossos que costumavam ser descartados por frigoríficos e açougues   viraram um retrato da realidade de famílias de baixa renda nos últimos meses.

Mas, não é de hoje que a carne está cara, nem é recente o consumo de ossos como única opção para a população mais pobre, de acordo com o diretor-executivo da ONG Ação Cidadania, Rodrigo “Kiko” Afonso.

“R$ 170 é a média do Bolsa Família, com isso, vamos combinar, como compra comida para a família, paga o aluguel, roupa, transporte para arrumar emprego? Independente do preço da carne, já não poderiam comprar com o preço anterior”, afirma.

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Além de doações, .

A prática era uma exceção para o açougueiro obter um retorno em cima do que seria descartado, mas, com a elevação generalizada dos preços, acabou se tornando uma regra e dificultando o consumo dos mais pobres, afirma o pesquisador do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas () Matheus Peçanha.

Em , a Procuradoria de Proteção e Defesa do Consumidor () emitiu uma recomendação para que os estabelecimentos doem os ossos e não os vendam.

O comunicado foi feito após um açougue em Florianópolis estampar o  na loja e viralizar nas redes sociais. A mensagem foi retirada após a polêmica.

Comerciante colocou placa com preço do quilo de ossos de boi — Foto: Caroline Borges/G1 SC

A base para a recomendação do Procon é que a prática pode ferir Código de Defesa do Consumidor por exigir dele "vantagem manifesta excessiva".

Contudo, a venda de ossos não é ilegal, segundo o . Mas eles devem ser inspecionados e "ter procedência de local regularizado, com inspeção federal (SIF), estadual (SIE) ou municipal (SIM)", diz a pasta, em nota ao .

Dieta pobre

Parte da população recorre aos ossos para ter uma proteína nas refeições e, de fato, esses produtos possuem resquícios de proteína animal, explica a doutora em nutrição e professora da Universidade Federal da Paraíba () Ingrid Dantas. Mas uma dieta restrita de ossos pode levar à desnutrição. Isso porque, além de pobres em proteína, eles são ricos em gordura.

Após o cozimento, diz a especialista, esses restos de proteína grudados aos ossos se solubilizam, gerando no caldo, mas os nutrientes estão em quantidades insuficientes, já que são apenas resquícios da carne.

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Além disso, o consumo excessivo de ossos pode acabar prejudicando a saúde, já que a medula óssea é rica em gordura.

Segundo a nutricionista, este tipo de alimentação fere o artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o artigo 6 da Constituição Federal, que determinam que todos têm direito a uma alimentação adequada e, no caso da Constituição, que este direito deve ser protegido pelo governo.

Não somente os ossos, os açougues também têm relatado um consumo maior de processados, como salsichas. A nutricionista explica que isso também faz mal à saúde.

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O caminho dos ossos

Quando não são voltados à venda, os ossos, após a desossa, seja no frigorífico ou em açougues, são direcionados para indústrias de rendering, que transformam os subprodutos do animal em novas mercadorias, explica Augusto Antoniazzi, diretor industrial do frigorífico Zimmer.

Ele relata que as peças normalmente são divididas entre dianteira, traseira e costela, e, nesse processo, a indústria frigorífica é responsável pela desmontagem do animal.

O direcionamento para o rendering ou, como também é conhecido, graxaria ocorre logo após serem feitos os cortes que dividem a carne que chega até a casa do consumidor, como a maminha e o coxão mole.

Vão para rendering, portanto, os ossos, membranas e partes retiradas do animal durante o processo de limpeza.

“É um processo de reciclagem. Em frigorífico tudo se reaproveita, desde a água até todos os pedaços do animal, não tem descarte, tudo tem um reuso”, afirma.

Antoniazzi explica que esta destinação é feita porque não é costume de o brasileiro consumir ossos. Porém, o caminho para a indústria de rendering não é obrigatório. O açougue ou o frigorífico pode encaminhar o produto para lixões ou doações também, por exemplo.

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Por Vivian Souza

13/10/2021 06h01

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