Crise expulsa quase cinco milhões de pessoas da classe média na América Latina

Matérias Oficiais(+10% Clicks) - Aline 22/07/2021 Relatar Quero comentar

Pandemia interrompe o crescimento progressivo da parte central da pirâmide. Auxílio emergencial no Brasil evita cenário pior, mas também maquia dados de pobreza na região, aponta Banco Mundial

Após uma longa e lenta ascensão, um declínio abrupto. A classe média latino-americana sai da pandemia mais magra: uma redução de 4,7 milhões de pessoas que caem em uma situação de vulnerabilidade ou pobreza, segundo um relatório do Banco Mundial publicado nesta quinta-feira. A América Latina deixa de ser, portanto, uma região majoritariamente de classe média, uma meta alcançada há apenas três anos. Apesar do retrocesso, programas de estímulo como os do Brasil conseguiram evitar um cenário pior. Sem ajudas públicas, mais de 20 milhões de pessoas poderiam ter deixado a parte central da pirâmide.

Em 2018 a classe média, cuja dimensão é frequentemente tomada como indicador do desenvolvimento de uma sociedade, tornou-se pela primeira vez o grupo predominante na região, após décadas de progressivo crescimento. Um ano depois, 38% da população (230 milhões de pessoas) tinha renda entre 13 e 70 dólares por dia (considerando-se a paridade do poder de compra), contra 37% de população vulnerável, com renda entre 5,50 e 13 dólares, e 22% de pobres, afirma o relatório intitulado O crescimento gradual e o rápido declínio da classe média na América Latina e Caribe. Desde 2000, a pobreza caiu quase pela metade, e a renda média dos domicílios passou de 13,9 dólares em 2008 para 17,1 em 2018.

A pandemia mudou drasticamente esse cenário. Os autores do estudo estimam que a classe média encolheu para 37% da população em 2020, enquanto o número de pessoas vulneráveis aumentou para 38,5%. Os programas de estímulo não bastaram para compensar a queda abrupta de 6,5% no PIB regional devido às medidas de confinamento. "A generosidade destas políticas foi bastante baixa na região como um todo", afirma o relatório, estimando que essas transferências representem em média 15% das rendas familiares. No Equador e México, as ajudas contribuíram com apenas 3% e 5% da renda, respectivamente, beneficiando no máximo uma décima parte da população.

Além de escassas, as transferências se concentraram nos mais pobres, geralmente deixando de fora as classes médias, menos necessitadas, mas também vulneráveis, disse a economista Nora Lustig, catedrática da Universidade Tulane em Nova Orleans, durante a apresentação do relatório. "Em termos absolutos, o que acontece com os pobres é mais preocupante porque qualquer perda é muito nociva, mas em termos relativos o setor médio foi provavelmente o que teve que encarar um maior esforço", analisou a acadêmica, que não participou do estudo.

O estrondo poderia ter sido pior. O Brasil, onde vive 41% da classe média da região, entregou o auxílio emergencial pela pandemia a 67 milhões de pessoas. Graças à mobilidade social no gigante latino-americano, o declínio em escala regional se contém em 4,7 milhões de indivíduos, pouco mais de um ponto percentual. "A perda líquida é menos negativa do que se projetou originalmente, graças principalmente ao generoso programa de transferências", aponta o relatório. Excluindo-se o caso brasileiro, os autores estimam que a classe média do resto da região perdeu 12 milhões de pessoas, passando de 35% da população em 2018 para 31,6% em 2020.

Da mesma maneira, as ajudas sociais brasileiras também maquiam o aumento significativo da pobreza no resto da região. As transferências ajudaram a tirar 22 milhões de pessoas de uma situação de privação econômica, e a América Latina fechou 2020 com 400.000 pobres menos. Entretanto, 77% dos que deixaram a pobreza foram brasileiros. Excluindo-se o Brasil, a região somou 13,7 milhões de pobres, destaca o estudo.

Mesmo com essa diminuição, os "novos pobres", como os autores do estudo chamam os egressos da classe média, conservam certas vantagens sobre os que já viviam em condições de pobreza. Têm melhores níveis de educação e um maior acesso a serviços como a telefonia celular (94% frente a 83%). "No médio prazo, à medida que a região começar a crescer outra vez, quem tem nível educacional mais alto estará mais bem posicionado para se beneficiar de qualquer eventual recuperação no emprego", afirma o relatório. Os Governos devem focar, advertem os autores, nas famílias que já eram pobres e que agora afundaram ainda mais por causa da pandemia.

Comentário do usuário