Falta de Massa Crítica x Crítica Falta de Massa: da formação da militância política de Direita no Brasil

Introdução: A Direita contra a Militância

Um fenômeno recente na política brasileira é o surgimento de uma militância de Direita. Há, entretanto, vozes na própria Direita manifestando-se contrárias a esse fenômeno. Argumentam tratar-se, inclusive, de uma contradição, pois haveria uma incompatibilidade entre o “conservadorismo” e a militância política. Essas vozes, apesar de movidas por boa vontade, estão equivocadas. Nisso, a Direita não é nenhum um pouco diferente da Esquerda; e nem poderia ser de outra maneira.

Direita Política: Popularização e Empobrecimento

Partidos políticos têm militância. Militância é um fenômeno de massas ligado a eleições democráticas: é a “infantaria” de um partido. Sem militância não se vence eleição alguma. A militância partidária pode agir motivada pela crença na autoridade das lideranças políticas ou por motivos menos nobres (i.e., comprada). Porém, um partido em campanha necessita de pessoas agindo no fronte em busca de votos.

É evidente que, ao ganhar corpo, um movimento político passa necessariamente a adotar formas mais empobrecidas. Outrossim, a adesão de tapados, tarados, e cafajestes é inevitável. Porém, apesar de serem ruins em si, não há outro jeito. A alternativa é ficar-se apenas na teoria, sem qualquer resultado prático. Portanto, é preciso defender um “alto conservadorismo”, sim, mas em conjunto com a popularização.

Ação Política: Liderança e Militância

Um movimento político, no qual partidos estão inseridos, é dividido em uma parte ativa e uma parte passiva. Compete à parte ativa mobilizar a parte passiva para que essa lhe dê votos e sustentação política. A parte passiva é composta por simpatizantes e eleitores. A parte ativa é formada por lideranças e militantes.

As lideranças são responsáveis por pensar e produzir o arcabouço teórico que justifica as , transformar essa teoria em prática, e conduzir o trabalho da militância. Os militantes são quem mantém contato direto com os simpatizantes e eleitores e quem reverbera os discursos e ações promovidos pela liderança.

Da teoria para a prática e da liderança para a militância, há uma simplificação e dogmatização daquilo que originariamente foi pensado e articulado pelos líderes. Nesse processo, perde-se algo do contato com a Verdade, em maiúscula. É essa perda que impele as vozes mais críticas à atual popularização. Contudo, há também uma aproximação à verdade, em minúscula – a verdade politicamente possível.

Portanto, afirmar haver uma incompatibilidade entre o conservadorismo e a militância política é equivocado. Basear tal afirmação em Russell Kirk, pensador americano, autor de, entre outras obras, “” e “”, é um erro ainda maior.  O conservadorismo de Kirk está tão vinculado à qualidade das lideranças quanto à popularização de certas ideias.

Alto conservadorismo

Defender o “alto conservadorismo” contra a crescente popularização do movimento conservador é um contrassenso e vai contra a obra de Kirk. A militância é rasa e dogmática por natureza, e ele sabia disso. A qualidade da elite é que faz a diferença para a ação da militância. Um precisa do outro. É fundamental que as lideranças não sejam rasas e dogmáticas, ainda que a defesa do dogma faça parte de suas tarefas.

A diferença é que a elite tem o dever de saber que a Verdade NÃO está no dogma. O problema de toda comunidade é quando a elite passa a se comportar como militantes. Nesse caso, o que deveria ser uma aristocracia passa a ser uma oligarquia, deixando de procurar o bem comum em favor do seu bem particular.

Kirk: Conservadorismo e Liberalismo; Prudência e Ideologia

Kirk também é responsável por essa confusão. Ele foi extremamente infeliz ao usar “conservadorismo” e “liberalismo” para descrever as realidades políticas sobre as quais que ele tratava. Para começar, o paradigma conservador dele era Burke, um  e, portanto, um liberal. Ademais, o conservadorismo kirkeano não quer preservar coisa alguma, mas a ligação entre a esfera concreta e à transcendente.

Para Kirk, conservadorismo é a defesa das “coisas permanentes”. No entanto, coisas permanentes não necessitam de conservação. Afinal de contas, elas são permanentes! As coisas permanentes não deterioram; não têm existência concreta – são transcendentes. Só o que há é nossa relação para com elas; a qual pode ser melhor e mais intensa ou pior e mais débil.

Para que preservemos e aprimoremos nosso contato com as coisas permanentes, é necessário que façamos constantes alterações tanto nas nossas ordens sociais quanto na nossa própria ordem pessoal. O problema de Kirk está na motivação das mudanças. O que ele chama de liberalismo é equivalente ao que Eric Voegelin, filósofo germano-americano chama de “ideologia” – a substituição da Verdade transcendente, Divina, pela minha verdade particular devido a uma “revolta egofânica”, a tentativa de tomar o lugar de Deus, motivada pela (orgulho).

Da mesma forma, aquilo que Kirk chama de conservadorismo é a manifestação política da virtude da prudência – é o senso comum, o bom senso, a  cristalizada como “a  possível” nas práticas correntes da sociedade. Quaisquer alterações nessas práticas devem levar em consideração os motivos pelos quais essas práticas surgiram e se consolidaram em primeiro lugar.

Tradicionalismo

Nesse sentido, “tradicionalismo” seria a face ideológica do conservadorismo, e “progressismo”, a face ideológica do liberalismo. Tradicionalismo, portanto, seria a substituição de Deus (i.e., da Verdade em maiúscula) pelos dogmas e costumes vigentes, os quais passam a ter valor absoluto; e progressismo, a substituição de Deus por um conceito de justiça a ser alcançado no futuro, o qual passa a ter valor absoluto.

Por exemplo, Voegelin chama tradicionalismo de “segunda ideologia”. Ele entende que esse seja menos nocivo que o progressismo [ver ““]. Porém, trata-se de uma diferença de grau; não, de gênero. Em ambas, o contato com a Verdade é severamente debilitado.

Finalizando

Todavia, nada disso tem a ver com o fato de militância ser meramente um “efeito colateral da disputa política” decorrente da necessidade de os partidos políticos disputarem e vencerem eleições. Como outros tantos, também tenho restrições à militância. Contudo, se há partido conservador, haverá uma militância conservadora. É tarefa das lideranças políticas canalizarem tais forças para o bem comum no jogo conflitivo-cooperativo próprio da política.

Entre o fim dos anos 90 e início dos 2000, ouvi uma frase sensacional de Cândido Prunes, um liberal, sobre a situação política da Direita no Brasil: “”. Agora, que finalmente estamos nos massificando, há quem reclame. Nós tínhamos que estar agradecendo aos céus essa oportunidade. Claro que isso apenas aumenta a responsabilidade de quem  política, mas quem quer jogar e fazer diferença tem que estar pronto para isso.

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