Reforma do Imposto de Renda muda a cabeça do investidor... além do bolso

Unificação de alíquotas em 15%, independentemente do prazo, e tributação dos dividendos mexem com a psicologia do investidor

A proposta de reforma do  Imposto de Renda entregue pelo governo ao Congresso deve afetar não apenas o bolso dos investidores, mas também a cabeça. Do ponto de vista da  psicologia econômica, caso seja mantida a ideia de se  unificar a alíquota para todas as aplicações financeiras em 15%, independentemente do período do investimento,  algumas pessoas podem resgatar o dinheiro mais rapidamente, enquanto outras podem se sentir estimuladas a investirJá o fim da isenção de dividendos pode causar pânico no mercado.

As medidas ainda necessitam ser aprovadas pelo Congresso Nacional. A ideia da alíquota única altera a tributação de ativos como títulos do  Tesouro DiretoCDBs e  fundos de investimentos, por exemplo, que atualmente têm alíquota de  22,5% a 15%, dependendo do prazo. Hoje, a menor alíquota é aplicada quando o dinheiro fica aplicado acima de dois anos, e a maior incide em resgates de até seis meses.

Os investidores podem decodificar essa informação de formas diferentes, conforme  Vera Rita de Mello Ferreira, autora da área de psicologia econômica há 27 anos, presidente-eleita da  Iarep (sigla em inglês para Associação Internacional de Pesquisa em Psicologia Econômica) e professora do curso do instituto  Vértice Psi.

“Aqueles que já acompanham mais de perto e captarem a mensagem podem se sentir com mais folga para contar com o dinheiro em menos tempo e  pagar menos pedágio”, afirma. Já as pessoas que se sentiam desconfortáveis de deixar o dinheiro aplicado por tanto tempo podem se sentir estimuladas a investir sem o impacto do imposto na decisão, na avaliação dela.

Aquiles Mosca, autor do livro “ Finanças Comportamentais” e responsável pela área comercial da gestora de investimentos do banco  BNP Paribas, vai por esse caminho. Na visão dele, a proposta é muito benéfica para os investidores porque simplifica a vida. “As pessoas estão sobrecarregadas de alternativas, nomenclaturas, palavras em inglês, cada uma com um tratamento tributário. É muito para a cabeça do investidor”, afirma.

Mosca observa que, na prática, a maioria das pessoas já saca o dinheiro antes de dois anos e que o estímulo do governo à aplicação de longo prazo acaba não contribuindo para o alongamento dos investimentos. “As pessoas estão interessadas em realizar o seu objetivo concreto da vida, não em esperar para pagar uma alíquota menor. Deve existir os Tios Patinhas que fazem conta na ponta de lápis, mas são a minoria”, diz.

Cristina Helena Pinto de Mello, pesquisadora da área de comportamento do consumidor e professora da  Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), concorda que a reforma pode aumentar as operações de curto prazo, mas não leva a isso necessariamente. “Os incentivos normalmente são bastante contraditórios. Uma alta na taxa de juros pode fazer a gente mudar de ideia sobre uma compra, mas a diminuição não faz a gente correr para comprar, por exemplo”, afirma.

Tributação de dividendos deve causar pânico

Outra questão importante abordada nas mudanças é a  tributação dos dividendos. Hoje, a distribuição desses proventos é totalmente isenta de Imposto de Renda. A ideia é existir uma  alíquota de 20%, com exceção de micro e pequenas empresas. Ou seja, para quem investe na bolsa, haverá, sim, impacto caso a alteração seja aprovada no Congresso.

A medida pode causar pânico nos investidores antes de fazerem as contas, na avaliação de Ferreira, da  Iarep. Não à toa, a bolsa caiu forte nos dias que se seguiram ao anúncio da proposta do governo, e o mesmo ocorreu com os  fundos imobiliários, que também correm o risco de perder a isenção sobre os  rendimentos distribuídos. “Acho que vai acontecer um pouco como foi com a redução da Selic, uma reação exagerada”, afirma a especialista, que também é .  Dois vieses comportamentais estão por trás disso, conforme a pesquisadora: a  aversão à perda e o  viés do status quo, que diz que as pessoas preferem que as coisas fiquem como estão.

“Temos certa resistência a tudo que é novo. Nos sentimos mais confortáveis com o que já conhecemos.  Antes de avaliar as mudanças, já ficamos de cara virada”, explica. Ela afirma que os investidores estão sempre em busca de conforto psíquico. “Queremos sombra e água fresca e a tributação acende luz vermelha na cabeça de todo mundo. A pessoa pode não ter feito cálculo nenhum e vai querer se livrar desse desconforto.”

Livrar-se desse desconforto, nesse caso, é vender as ações. Mosca, do BNP Paribas, que também é , afirma que a possiblidade de perda da isenção já foi mal recebida pelo mercado e pode ter impacto ainda mais negativo se a reforma acontecer. “É uma mudança de regra no meio do jogo, pode gerar incerteza institucional. Quantos não foram para a bolsa nos últimos anos tendo em mente que havia benefício tributário? Essa frustração ainda vai causar ajuste de preço nas ações”, projeta.

Mello, da  ESPM, concorda que as pessoas começarão a mudar as expectativas em relação ao futuro e as escolhas a partir disso. “Haverá uma mudança alocativa, as pessoas provavelmente vão buscar mais rentabilidade em renda fixa”, estima.

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